Não existo em mim

Posso sentir a leveza de ser só leve e não estar aqui para ser mais nada. Estou tão inerte de mim mesma. A sensação de não existir é reconfortante porque ser sempre causa algum incômodo. E não sou!

O meu corpo repousa em mim e estou incólume aos meus pensamentos. Agora eles estão dormentes. Não existo mais em mim, então não penso como pensamento, penso como levito.

Sou leve como a brisa que passa. Sou leve como o pássaro que voa. Sou leve e estou livre do meu corpo.

A paz que tanto ansiei só pude experimentar quando me despojei de mim. Quando me despojei do meu mundo. Quando deixei a minha mente sucumbir aos meus desejos de liberdade.

Soltei as correntes que me aprisionavam e posso deixar de ser por ser…

Posso voar como a borboleta que pousa na minha janela. Como ela, posso saborear os encantos da vida que é viver sem limites, sem prisões, sem ser…

A borboleta não é, ela existe. Ela é um instante. Um momento apenas. Ela é vida sem ser só pela beleza que ela é. Ela é a vida que não se explica. Vida! A vida é uma prisão. Se estou morta, estou mais viva do que nunca!

Vou levitar por entre os montes mais altos porque me desprendi do meu medo de altura! Desprendi dos meus medos mais tolos e me cerquei da coragem que me faltou por tantos e tantos anos.

Vou sentir o gosto da noite. Vou sentir o gosto do dia. Vou sentir a vida como nunca ousei sentir porque um corpo que não me cabia me limitava e me impedia de viver…

Hoje é um dia solar e perdi o medo dos dias ensolarados. Posso olhar para o sol e não ficar cega. Posso permanecer ao lado da luz, sem ter medo do escuro.

Por que eu tinha tantos medos dentro de mim? Por que me tornei prisioneira de mim mesma? A altura é apenas uma ilusão.

Tudo o que os nossos pés podem tocar nos dá uma falsa sensação de segurança, mas nada é seguro. Nada é absolutamente definitivo. Nem os nossos pés no chão.

O infinito é tão assustador que as paredes de nossas casas nos protegem do infinito e nos limita de nossos medos dentro de um espaço.

Mas não estamos seguros em lugar algum e compreender isso, talvez, nos liberte de nossos medos, pois se não há segurança de nada, para que e por que nos serve o medo de tudo?

Não é incrível perceber como tudo é ilusório? Hoje posso ver como as árvores estão floridas. Eu não via!

Por que deixamos de ver as sutilezas nos detalhes enquanto estamos tão absorvidos nas nossas questões financeiras e emocionais? Que alívio!

Em algum momento de minha vida eu me daria conta de que viver é muito mais do que apenas ser o que quer que seja?

Eu posso não ser nada, ou poderia ser tudo o que o mundo cobra de mim, mas será que eu ainda seria, apesar de ter tudo ou não ter nada, ou de ser tudo ou de não ser nada?

Seria o meio termo o estado absoluto e pleno de ser e estar?

Não sei! Questões que não se esgotam, mas que não me incomodam mais…

Penso como brisa e o meu pensamento se esvai com ela. Não se esgota, pois são muitas questões, mas não precisam mais ser justificadas pela lógica e coerência.

Transcendo o meu pensar e ele vaga comigo com o vazio de que me esvaziei, pois estava cheia. O pensamento não pode ser cheio porque se for, ele perde a sua essência.

O pensamento tem que ser vazio para dar espaço…

Eu penso o mar vazio e ele é cheio, mas é aparência. Ele é vazio sim! E eu no vazio pulo no vazio e vago… Bebo do vazio salgado e ele mata a minha sede doce.

Eu que passei a ter medo do mar há alguns anos…

Eu tinha medo de altura, mas o mar eu enfrentava. Quase fui engolida por uma onda e parei de me arriscar.

Agora, livre de mim, eu posso pular dessa montanha no meio do mar e nadar! Tudo é um vazio de uma profundidade que só se sente se abstrai do cheio.

É como um sonho…

Eu percorro todos os lugares, estou dentro de cada canto e nada me habita porque não tenho espaço para nada.

Ando conversando com os passarinhos, com os insetos, com a lua e com as estrelas, com a noite e com o dia. Ando e não ando porque voo e não voo…

É tudo tão mais simples do que pensava ser…

Sinto como se fosse tudo uma questão de como nossos olhos enxergam as situações e mais que ver, sentir. 

Para os olhos, a visão que não escapa além do alcance dele mesmo porque ele só vê, mas se ele vai além do que ele vê, ele enxerga.

Eu enxergo tudo o que os meus olhos veem. E eles veem somente aquilo que eu quero. Eu limito meus olhos porque eles enxergam e enxergar tudo precisa de seleção.

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