Perdoem os famintos de bicicleta

Preciso pensar em algum plano para a minha vida, mas a morte de um conhecido me levou para um lado obscuro do qual não posso fugir agora. Eu queria pensar na morte como se todos tivessem o direito sagrado ao seu encontro com Deus e que em inquisição sobraria a fogueira, o abismo ou o céu. Mas e se o céu fosse só o mar aberto cheio de galáxias subterrâneas repleto de tubarões famintos à espera da carne suculenta? Ou se o céu fosse o labirinto das selvas cheio de crocodilos e plantas que queimam só de se encostar confinados estaríamos à dor eterna? E se o céu fosse somente o nada e que nada poderia beber ou comer, nem amar ou odiar, simplesmente céu?Sobraria a fogueira que queima em intensidade de luz penetrante, caldeiras de corpos que morrem e vão para aonde? Para o encontro com Deus que não termina e o Diabo? Ri, ri, ri alto disso tudo? Então restaria o abismo, caindo, caindo, sempre para o fundo do poço, do buraco, do fundo escuro que nada enxerga, nem Deus, nem o diabo, nem tudo, nem nada. Mas não nos cabe a escolha…Nem do Céu, nem do fogo, nem do abismo. A escolha é Dele.E tenho medo de morrer pra deixar que Deus decida onde já estou se em céu, se em fogueira e se em abismo, um se confundindo com o outro em matéria. Ainda não morri para ver, mas os que quase foram já disseram que viram a luz no túnel e voltaram pra contar o que não temos certeza de nada… A Bíblia sagrada que eu ainda não tive a coragem de ler, mesmo lendo de tudo, porque tenho medo da verdade que liberta para ir aonde? Eu não temo a morte, nem meu encontro com Deus, nem as gargalhadas estridentes do diabo. Nem tenho medo do Céu, nem do abismo, nem da fogueira porque confio e a confiança é coisa boa.Ontem um homem deu um tiro em sua própria cabeça. Esse homem não tem medo e deve estar no abismo antes do seu encontro com Deus e espero que Deus o espere sentado em inquisição para um diálogo… Será? Espero que este homem seja perdoado por sentir tudo e tanto, por desistir, por não querer nem o céu, nem o abismo, nem a fogueira. E penso que não existir nada além daqui seria melhor pra ele agora. Não existe, mas mesmo o que não existe é. Então há. E rezo pela absolvição dos que ficaram, dos que continuaram e pela salvação dos que foram. Espero que o céu seja um límpido cântico de cifras embaralhadas por todas as notas musicais, desenhado por todas as tintas da tela colorida desenhadas pelos pintores em estado de graça. Espero que todos possam nele um dia entrar de mãos dadas com o amor que tanto ouvimos falar, mas não sentimos… Eis o céu, sem fogueiras, sem abismos a que todos poderíamos ter o direito, mas não temos… Céu! Queria poder desenhar a morte como um pássaro que voa. A morte alívio por escolha dos que desistiram porque ainda mais sofrida do que já foi? Para que não se esqueçam que desistir não se trata de escolha. Não podemos… Agora estou envolta por esta onda de dúvida além daqui. Não existe o fim. Este que inexiste no nada já é. Então tudo há. Preciso pensar em coisas boas, coisas alegres como o dia em que andava de bicicleta e era criança ainda. Preciso pensar no encontro que me espera. O dia em que assiste o filme ET no cinema com o meu primeiro amor- meu pai. O dia em que descobri que a bicicleta era maior do que o brinquedo que estava em cima da cômoda da sala depois de uma noite olhando as estrelas esperando o Papai Noel com sua barba branca e seu saco vermelho cheio de presentes… Bicicleta é a alegria disfarçada na terra pra que a gente entenda o segredo da alma. Liberdade! A alma que não se sente livre suicida, eis o motivo que as pessoas não entendem. Perdoem os suicidas. Perdoem os fracos que “desistiram”. Perdoem suas “mães”. Perdoem seus “pais”. Perdoem seus “filhos”. Perdoem seus inimigos antes que caiam nas armadilhas das prisões, das gaiolas, das jaulas de leões famintos a devorarem a sua existência e pensem em desistir. Perdoem os famintos de bicicleta.

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