A vida tem dessas coisas

Sentado rente à janela do ônibus o Senhor ofereceu para levar a mochila da garota que acabava de entrar e se assustou com o peso que ela carregava. Junto dela alguns garotos se divertiam segurando aos solavancos e com isso davam risadas! Também carregavam mochilas pesadas. Durante todo o trajeto aquele senhor demonstrava por meio de suas palavras um coração cansado e seguiu debruçando os desgostos sobre o tempo, sobre o vento, o peso da mochila da garotinha que atenta balançava a cabeça e sorria. Ela, naquela sua ingenuidade escolar, sequer reclamava do peso que carregava e parecia até gostar. Tanta vida ainda pela frente, tantos sonhos para fazê-la acreditar. Ele, já sem esperanças, apenas lenço e carteira no bolso, sem mochila pesada, seguiu reclamando do ensino nas escolas, do presidente, do preço da pasta de dente. E eu me perguntava porque foi que sua alma havia se tornado tão dura. A garota sorria e dizia: — É, mas eu não ligo. Estudo dois horários: manhã, tarde e a noite ainda em casa para as provas. Três turnos. — Ele já havia perdido o tempo, pensava eu. Escoou entre os dedos. Sem se dar conta de que a vida tem dessas coisas. Mochilas pesadas, sacolas vazias. Choro de desespero, risos de conquistas. Aquela garotinha não entrou no mundo do Senhor Lamento. Fez do sorriso uma barreira, um jeito de quebrantar tristezas. Minha vontade, olhando a conversa dos dois , coisa feia!, era dar um abraço apertado entrelaçando aquelas histórias para balancear os pesos da vida. Talvez assim, aquele senhor que carregava apenas lenço e carteira, pudesse receber daquela garotinha estudiosa, cheia de livros, um pouco da sua leveza, da sua gentileza e sonho. E pedi ao Papai do Céu que propiciasse essa troca dentro daqueles corações. É que a vida, a vida tem dessas coisas e talvez a daquele senhor tenha sido dura, mas quem sabe o sorriso daquela menina tenha colorido um pouco aquela alma? Acredito nisso! É que a vida tem dessas coisas. E a garotinha? Ah! A vida há de retribuir essa sua vontade calma de vencer, de crescer sem pressa e não lamentar o peso que já carrega desde tão nova! Desceu com os cadarços desamarrados e podia até tropeçar logo ali adiante. O senhor, vendo-a partir feliz, retirou o lenço branco do bolso e enxugou aquela lágrima grossa que caia incontida denunciado ao mundo quem já foi um dia. Eu percebia tudo calada e inundada. É! A vida realmente tem dessas coisas.

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