Seguir receitas

Agora vai dar tudo certo! Comprei uma revista com a seguinte manchete: Aprenda a viver nos tempos de rede social. Comprei também: ovos e fubá. Seguirei a receita do bolo. Assim não tenho como errar. Só não posso esquecer um tiquitim de sal. Agora, daqui pra frente, dará tudo certo! Seguirei também a instrução da revista.

Porque seguir receitas prontas deve ser melhor do que ser quem a gente é de verdade. Receita pronta também faz a gente não errar o bolo. Manuais de instrução, de comportamento, etiqueta, postura, são um manual de vida. Salvam vidas! Salvará a minha agora, neste momento! Céu garantido.

A minha saudosa Vó Ilda já me bradava desde novinha que ia me matricular na Socila – escola de etiqueta que salvo engano nem existe mais. Teria sido salva… E a Vó Luizinha me deu ou emprestou um livro de receitas que em meio a mudanças não sei aonde foi parar… Ela não pode saber disso!

Acontece que segui direitinho a receita do bolo da minha mãe, mas esqueci de colocar o fermento. Ele não cresceu… Assim acontece com todos esses manuais tremendamente chatos de comportamento porque inevitavelmente esqueceremos algum item. E aí?

O que está faltando nesses manuais é a palavra amor. Aprendemos de tudo, desaprendemos a amar. Parece que viramos um grande cartão postal onde enviamos para as pessoas somente os nossos melhores lugares, onde tudo é perfeito. Somos eternas Alices no País das Maravilhas.

Não estou dizendo que precisamos sair por aí falando tudo o que pensamos, nem tampouco escancarando ao mundo as nossas mazelas pessoais. Mas é ridículo pensar que existe um regra para se viver e ser feliz. E há quem faça essas coisas: fala o que pensa e desabafa os seus problemas nas redes sociais. Quem nunca?

Mas também não vejo problema nisso. Estamos aprendendo tanto, seguindo tantas regras, mas nos esquecemos de sermos mais pacientes com os outros, menos julgadores, menos intrometidos. Esquecemos que somos humanos, cheios de defeitos e desconhecedores da verdade.

Está faltando no mundo um pouco mais de caridade, não dessas que se fazem em ONGS e Igrejas, estou falando dessas pequenas gentilezas diárias, de nos colocarmos no lugar do outro e sabermos também o nosso lugar. Rede social tem nos tirado a nossa civilidade, a nossa sociabilidade.

Sem contato com o humano que nos habita estamos nos tornando máquina atrás de máquina e precisando comprar manuais de convivência. Sim! Se vale a pena seguir alguma regra social, acredito que essas valem a pena: seja real, seja humano e sensível. Seja amável e gentil e menos reativo na medida do possível, porque também haja paciência. Tem muita gente pé no saco…

Isso serve para mim, para você, para todos nós, porque estamos encarando um tempo diferente, mas nem por isso ele precisa se tornar tão hostil e violento. Também não precisamos fingir que somos Alice. Ninguém aqui é!

Ah! E joguem essas receitas de “modelar gente” fora. Todas elas. Menos as do bolo! Porque esquecer o fermento é culpa sua e as coisas estão caras mesmo, mas receita de bolo, principalmente a de nossas mães e de nossas avós dão sempre certo!

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