Paixão pelas ruínas

Não sei de onde vem este gosto pelas ruínas, construções embargadas, demolidas, destroços em meio às ruelas e avenidas, subsolos. Essa insistente mania pelo inacabado, imperfeito, destruído. Eu gosto de pensar que dos cacos surgem os mais belos vitrais, do caos a grande obra de arte. É que antes das ruínas haviam castelos, um início feliz para tudo, a idealização de um projeto, a construção de uma casa, um casamento, um sonho qualquer. Alguém. E se pensar bem, não houve sequer o que se possa chamar de início porque tudo é recomeço, tudo é impermanência. As intempéries nos pegam desprevenidos e, muitas vezes, desabam as aparências de pertencimento definitivo. Nada é. E apesar das vigas expostas, a estrutura, ela permanece a mesma. Se cavar fundo vai estar lá, intacta. É como a ponta do iceberg, se olhar em profundidade, é bem maior. Não é o que sobrou das aparentes paredes frias das demolições, são seus alicerces, estes que sobrevivem ao tempo que me fascinam. Essa força gigantesca de sobrevivência, apesar. Por isso não tenho medo dos mergulhos abaixo dos níveis, dos solos, lá está a beleza. Essa paixão pelos destroços, restos e fragmentos, poeiras que dispersam no ar, sutis, quase uma miragem a bailar, pois, na verdade, existe sempre mais do que a aparência de um chão de madeira comido pelos cupins, uma água teimando em achar caminho por um furo qualquer de tubulação a causar mofos e estufamentos nas paredes. Todas as rachaduras, trincas, são vida jorrando, brotando, desabrochando, insistindo em não permanecer a mesma em constante balé de re-construção. Essa paixão pelas ruínas me faz entender que nada chega ao fim, nada acaba, nada termina, nada sequer começa. Nada é definitivo, nem eu mesma. É como comer a mesma fruta de forma diferente todas as vezes ou se colorir de lama, ou rolar na grama e se encharcar de chuva. Sempre um novo olhar, uma nova perspectiva, outra narrativa. Todas essas vincas expostas traz um mundo lá dentro. Essa paixão pelas ruínas, talvez seja essa mania que eu tenho de amar o feio do outro por saber que lá dentro é aonde mora o belo. Queria eu, como Manoel de Barros , construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo.

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