Acordei mar

Acordei mar, salgada, expulsando o rio, perigosa. Peço que entrem com cuidado. Ou nem entrem. Há valas abertas, tubarões à espera da comida. A maré está cheia e até o sol se escondeu atrás das nuvens. Medroso. Jogaram muito lixo em minha margem. Foi parar lá no fundo. Estou tentando cuspir o entulho. Alguns atiraram por descuido, outros propositalmente. Gente insensível. Estou em fase de mar com ondas gigantes querendo devorar cidades, invadir casas. Estou tomando cuidado para não ferir inocentes, mas acho que não vai ter jeito. Pedi que não entrassem nas correntezas. Não ouviram meus sinais. Atravessaram. O salvador de vidas até tentou advertir, mas os desatentos e inebriados pelo canto da sereia ousaram. Não pude fazer nada a não ser assistir. Estou brava. Tendo cólicas de indigestão. Placas vermelhas sinalizam minhas margens. Meu peixe preferido morreu por causa de um canudo. É. Por causa de um simples canudinho. Estou indignada. Afastam-se de mim. Posso querer transbordar isso tudo de uma vez. Alguns vulcões teimam em se precipitar, mas ainda os contenho. Posso virar um Tsunami à qualquer momento. E nem vai adiantar tentar fugir da minha força. Hoje acordei toda mar, perigosa, dona da praia, das rochas, das encostas, das marés, dona de tudo. Ao menos assim mantenho-me fiel à minha natureza. Fidedigna aos propósitos incompreensíveis e avassaladores, descomunal mas plena, mar, toda mar.

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    5 comentários

    1. sou um pisciano em terra e dentro de mim habita um mar. do lado de fora das minhas águas salinizadas, a vida se transforma em pedaços que não mais se unem. um nicho que cresce e assusta. olho então o que em terra é destruído pouco a pouco, hoje com maior velocidade, e sinto uma dor aguda no corpo. ao me atingir, o meu mar também foi atingido. ainda não de morte, porém, ela já está anunciada. falta saber o quando. dentro dos olhos, onde as ondas escapam para fora, reside a esperança. nem todos os das são iguais. gosto muito da leitura dos teus textos. há razão, consciência e o que falta aqui fora: sensibilidade. muito feliz por encontrar esse mar profundo, que também te habita. o meu abraço carinhoso.

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      • Seja sempre bem vindo para deixar suas impressões da vida e dos meus textos. Como bem disse nem todos os dias são iguais. Uns dias cinzas outros Valsas de Strauss! E a morte amigo é a única certeza para onde caminhamos hoje, amanhã, daqui há uns anos. E viver o hoje, um dia de cada vez é tão grandioso. Viva! Vivamos aproveitando nosso olhar sensível de ver a beleza, a poesia e as cores. Abraço carinhoso.

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