Somos sobreposições de tintas

Imagino nossas imperfeições sendo labutadas como a tela em aquarela do pintor, esboço inicial ainda tosco, um rosto aleatório embaçado, sem ângulo, fragmentado. Simetrias vão sendo delineadas pouco a pouco, cui-da-do-sa-men-te. Um borrão parece desconstruir a obra. Contrastes. Dentro-fora. É preciso calma. Um pouco de tato. Parecia ser aquela a melhor cor, mas não combinou. O conjunto não criou harmonia. Um retoque aqui, outro ali. Às vezes é preciso deixar cair uma tinta preta diluída em água, turva, vermelha, cores escuras. Fortes. Ir fazendo traços menos gentis, mais intensos, deixar fluir. Libertar o artista de suas angústias- tela inconsciente. Ao fim, pode parecer que o resultado final não combinou com os traços iniciais. É que o processo não termina ali. A vida é assim. Às vezes é preciso abandonar a ilusão, criar outras para se tornar real. O que um dia também se tornará parte de um sonho qualquer. Livrar Deus das culpas. Nos perdoar também. Assim somos nós, telas de artistas, imperfeitos, dias cinzas, outros coloridos, caos, outros valsa de Strauss. Telas precisam descansar para que os pigmentos penetrem, somos sobreposições de tintas, diárias. Às vezes impacientes, dificultando o trabalho, criamos atalhos, mas também é caminho. Tudo é. Também é arte. Faz parte. É vida. É treino. E muita, muita paciência!

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