Perdoe as teias de aranha – ensaio conto

Vivia a espreita das poeiras. Elas pareciam ganhar corpos celestes em sua existência. Era nessas pequenas cadências que Dona Arrumadeira achava companheira para as suas carências.

Procurava intriga com as bolinhas de sujeira que surgiam em cada quina de seu assobrado. Dava dó vê-la se consumindo por causa de uns pozinhos à toa. O engraçado é que as teias de aranha não lhe causavam incômodo.

De tanto espanar os pés das visitas com a vassoura, acabou sozinha.

Num belo dia, Dona Arrumadeira causou espanto na vizinhança. Com um chicote na mão atravessou a rua sem olhar para os lados atrás do satanás que havia surrupiado a sua geladeira.

Agora além de espanar poeiras, Dona Arrumadeira passou a sofrer de mania de perseguição.

Após o episódio do chicote, alguns vizinhos religiosos aconselharam-na a se confessar com o Padre da Paróquia da comunidade.

De certo tratava-se de algum capiroto avarento se manifestando por brecha de desobediência com Deus.

Após uma longa prosa com as sujeiras, suas conselheiras, decidiu ter com o Sacerdote.

Um Pai Nosso foi a sua penitência.

Não satisfeita, Dona Arrumadeira passou a ter com o Frei todo santo dia.

Penas leves a ela incumbidas por própria conta se submetia à horas de joelhos ao pé da sacristia.

Depois tomava banho de água benta e não deixava nem um tiquinho para os cristãos que vinham assistir à missa.

O Padre foi ficando desassossegado com as horas que Dona Arrumadeira passava no recinto limpando o altar, as cadeiras, os ornamentos e as imagens sacras.

Num momento de desespero passou o chicote guardado sob o seu cuidado acaso o coisa ruim resolvesse se manifestar novamente, e não pensou duas vezes: Pôs ela pra correr.

Não é que a Dona Arrumadeira tomou jeito?

Por certo o demônio resolveu livrar o corpo daquela mulher.

Dizem que até arranjou um pé de meia e vive de chamego com um rapaz uns dez anos mais jovem.

Volta e meia a vizinhança escuta as longas brincadeiras do casal com o tal chicote e agora a cisma passou a ser com as pobres das teias de aranha. Não perdoa uma.

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