A arte de bambolear

Era polida de compostura, nem se pode dizer que tinha beleza, apesar de ter. Era sisuda, ereta, pronunciava todos os erres. Composta por camadas. Uma a uma. De pó. De blush. De batom. Falava manso, com a voz timbrada, pausada. Toda demarcada. E eu despistava aquela rigidez como um bambolê. Não é que rebolava ali na sua frente. Imaginava-me enquanto ela seguia comentando sobre o último lançamento da grife do fulano de tal. Considerava-me entretida. Até ficava- rebolando, rebolando. Ela era reta -digna de virtudes. Quase madre. Dessas que não cometem pe-ca-do. Nem os da gula. E eu gulosa, cheia de defeitos, vicissitudes, um verdadeiro bambolê recheado de chocolate. E o pior é que éramos amigas. E eu nem conhecia os seus segredos! Não havia pontes para o seu mini castelo de areia. Sei que naquela caixinha de prata em cima da penteadeira haviam de ter vários cochichos, sussuros guardados, escondidos a sete chaves, mas éramos amigas. Porque existem coisas que não são da minha conta. As pessoais, as das capas de jornais, as conversas banais. Prefiro bambolear, rebolar, dar meia volta. Volta e meia ela me mantem informada sobre os assuntos frívolos- esses que nos distraem das asperezas e acabam nos fazendo falta diante da realidade bruta. E eu? Rebolo, rebolo e não perco a amiga. Antes assim. Faz-me até certo bem. As capas de jornais? Nem andam valendo a pena mesmo.

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