por meus pequeninos olhos de dentro desta “janela”

A cama mantém-me inerte
Presa em pensamentos sem formas
Ela criou redomas
Estardalhaços de vidros ecoam do lado de fora
Alguém passou por cima dos cacos quebrados
Não vi feridos, nem sangue, nem homens armados
a me salvar dessa redenção injustificada
Os vidros quebrados por uma molécula
Esparramados no asfalto abafado pelo som da sirene
em sentido anti-horário
O sino da Igreja não soou, Aqui
do outro lado sim
Aqui a música não tocou
do outro lado sim
A borboleta não voou
Do outro lado também não
Rios inevitáveis que se rompem, eu inerte
Eu inerte, eu não
a minha cama
Inerte ela
Culpa dela
Toda dela
Ela que assiste toda a minha decadência
deitada de pijama na cama
i-ner-te
porque disseram; fique em casa
Caos em forma de desespero contaminaram o ar
Estou em casa
Eles pediram
Estou em casa
Corro o risco de me contaminar com um vírus
E morrer de falta de ar por falta de um respirador
me-câ-ni-co
Sustentado por?
Estou em pânico
Alguém me ressuscita?
Entidade invisível
Quem criou não importa,
mas conjuro e conspiro -sei quem foi!
Sei quem foi!
Martelos e seus castelos assombrados
Arruinados amanhã
O céu lá fora tem azul
O céu daqui é cinza opaco e sombrio
Ele não! grita a menina loura de cabelos compridos do outro lado com um microfone improvisado entre os dedos e sua mini fábula é acreditar que há culpados e inocentes
Rapunzel desça a-go-ra do seu castelo
Vem brincar de ser adulto no meu mundo de duendes
Do-en-tes e fa-min-tos
Eu incoerente
Eu me explico:
há um sol, há uma lua e quem gira em volta do Planeta Terra é o dono do mundo onde ninguém comprou
Entendeu?
Jaulas ou crocodilos? Escolhe!
Não podemos
Fomos incinerados vivos
Os sonhos
Os sonhos
Ainda tento me lembrar do sonho que tive essa noite quando fui dormir de mãos dadas comigo e pedi para Deus me dar
Ele me deu sonhos, mas esqueci quando acordei
A cama inerte já que agora
Agora no agora do tempo não tem tempo e
não há como fazermos nada
Absolutamente nada
A não ser ficarmos passando o tempo que as horas passam no ponteiro do relógio que não para porque tem bateria, mas um dia acaba sim
ficarmos em casa com nossos pijamas para nem gastar água- pode faltar
os chinelos estão na porta em caso de necessidade
e para não contaminarmos daqui até o outro lado do mundo
Com nossos sonhos
Os sonhos
Os sonhos
Que foram roubados da noite para o dia
presos nas jaulas dos crocodilos
E nem ousem tentar adivinhar
o lado que escolhi para lutar essa luta
de inocentes cheios de culpa
Da culpa que carregamos?
Jesus livrou-nos ontem, mas e agora?
De que lado estou?
Eu hoje grito junto à menina do outro lado – ele Livre
Ele livre!
Ele não
Ele livre
Ele
quem é ele?
Quem Sou?
Mais livre do que nunca
E você nunca vai saber, onde moro, quem sou, nem de que lado estou porque aqui me sou oculta, mesmo que te conte alguns acontecimentos do meu dia, mesmo que durma uma vida inteira comigo eu te digo
Não sabereis quem sou, nem me sei, nem sabes quem és
Mas te interessa?
Te interessa saber?
Não sou conhecida por ninguém da minha rua
Nem do outro lado da porta me conhecem
Nem do lado de dentro me apresentei ainda
Por que sabereis?
Estou mais próxima da menina loura do outro lado
Só me falta a coragem do grito
O grito do pintor, como é mesmo o nome dele?
está desaparecendo agora da minha mente, assim como os sonhos
Os sonhos que se sonham dormindo
O dia estava realmente lindo, o coreto vazio em coro não se manifestou
Dessa vez
Outro dia sim
Bateram panelas de suas janelas inconformados a formar a voz de alguém- ontem, hoje será?
Vintém
É por isso!
Eu pergunto?
Por que gritam?
A menina do outro lado apresentava seu mini espetáculo da varanda do seu apartamento
Ela tem? Por quanto tempo a música toca até o final?
Por quanto tempo o dia acaba sem o sol se pôr no poente lado escuro do dentro de quem sente?
Por quanto tempo eu vou do outro lado e pego na mão daquela menina que desatina
delira ela?
Quer ajuda? eu grito dentro, dentro do meu assento de dentro, eu plateia que nem ela viu do outro lado
Sentado no chão da sala o garoto parecia não gostar do espetáculo
A menina
Loura, louca
Maldita garota cale a sua boca!
Sentado na sala o seu gaslighting incompreendido
Coitado do inimigo?
Ou é seu irmão, aquele menino sentado no chão com a mão no ouvido?
A menina do cabelo lindo, louro comprido no seu desespero gritou por atenção
Ninguém deu
Não teve plateia
Esperou ansiosa pela estreia
Pelo dia que sairia do seu anonimato
Nenhum vídeo fizeram, dela
Gritei fora- quer ajuda?
Ela balançava a mão
Imaginando seu dia de glória e vitória régia
Agora me ocorreu o quê te fez cantar na janela com um microfone invisível
Ela, a garota do outro lado
ainda está lá fora esperando por algo além dela mesma
O dia ainda está quente e abafado
Desde o início
Desde o primeiro indício de sopro
Desde o dia em que acordei e quis abrir meus olhos e eles estavam grudados e não acordei
Sinusite, disse a médica do pronto Socorro!
Desde esse dia em que não comprei água boricada para curar porque estava cara e preferi passar apenas água e sal
Desde o dia em que me ensinaram assim: obedeça a Ciência. Ela manda.
guardo meus olhos ainda grudados de não querer ver do outro lado
A menina do outro lado gritou enxerga a plateia-eu, dentro de mim,
um barco a vela à deriva
Enxerga a louça se consumindo dentro da pia a espera de alguém para lavar com água e sabão por dez minutos,
mata sim o inimigo
A água escorrendo pelo ralo junto as lágrimas da menina louca, loura do outro lado
Nossa que vontade de comer um brigadeiro!
Mas lembrei agora, agora mesmo que no prato do brasileiro falta
e perdi a fome de doce
quero o amargo do jiló na boca
despertando qualquer coisa que não inércia
dormência, latência – ora me deixe com minha falta de coerência
Colocaram calmante nas águas das bicas
Contaminadas por inimigos invisíveis
Porque disseram fique em casa
Mas a garota do outro
Só ela
Resolveu gritar
O dia continuou quente, ventilador ligado direto para a parede
Evitar a sinusite porque qualquer espirro é assombração
Ontem senti meu corpo esquentar tipo febre
O termômetro desmentiu
Era frio depois de horas debruçada na janela
esperando a revelação
do mistério, do grande enigma, da charada,
mas as estrelas
brilhantes feito diamantes no Céu não me disseram nada
E antes um pouco de anoitecer eu já estava
Quem criou?
Revirei dentro
Revirei fora
Quem?
Gritei
Quem?
Ninguém respondeu
Nem a menina do outro lado apareceu para me Salvar
Dentro agora sou igual aquela menina que grita um grito de libertação
Contra o guardião da Nação?
Não!
O grito
O grito
É contra o seu inimigo
A água secou na panela
E quase queimei a cozinha
Macarrão com molho vermelho e grosso para o jantar
Dia arrastado, tempo parado no ponteiro das horas da cidade inerte ao grito da menina na janela- seu, meu desabafo, um dia de glória, meu grito de mim
Eu-Inerte ao inimigo invisível
Noticiários não fartam de nos sentenciar à morte lenta, sentados nos sofás de nossas casas fumando um charuto, comendo alcaparras eu já, só que caviar eu nunca nem vi
Juro
Quem viu?
Gostou?
Sentir superior, deixa…
É bom!
Alguém pediu para desligarmos as televisões, o que nos resta?
Mas ele tem razão eu desliguei
Hoje vi uma cena do filme “Escritores da liberdade” e fiquei com medo
Numa parte do livro Anne Frank contou que
foram proibidos de saírem nas ruas
foram proibidos de irem aos estádios
foram proibidos de ouvirem os rádios
De respirar e voar
Eu voo já que tenho libélulas presas em cima da minha cama e sonho
sonhos bons, sonhos ruins
Ah sim!
tenho sonhos, às vezes
e não é sempre
porque sempre me cansa
Acho que os Escritores da liberdade agora estariam inconformados
A menina do outro lado
Do outro lado
Do outro lado
Cansou e foi dormir porque ninguém entendeu seu grito
Só me resta
Só me resta
Dormir também porque amanhã
Amanhã quem sabe
Amanhã…

11 comentários

  1. Há uma passagem no texto emblemática, para mim, que diz o céu azul lá fora e aqui dentro cinza opaco e sombrio. (Há outros, claro) Vivemos esse tempo , no entanto, há um sinal entre o azul e o cinza que cada um de nós irá descobrir quando tudo passar. Juntos vamos seguir e viver quem sabe o despertar de um tempo que escapou dos nossos sonhos. Um grande abraço carinhoso e que texto, Renata!

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    • Acredito tanto nesse processo de despertar a que estamos sendo sutilmente submetidos por uma força além daqui, uma força que nos redime e nos salva disso tudo! feliz que gostou meu amigo e que destes tempos sombrios emerja forte a nossa própria luz. louca para sair e poder enfim tomar um café vendo o movimento do tempo. abraços daqui desta janela.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Depois da seca, a bonança…. Escreveu para os últimos 30 dias sem escrever… rsrsrssr Quanta coisa para se dizer, para escrever, para gritar… Tem aquela menina? E esta mulher que és? Ou ainda busca a menina que está adormecida em ti? Não tem como não perguntar? Aqui nas muitas janelas contemplo a Serra do Curral, um arco- íris que deu ar da graça… Muio trabalho remoto… Um menino cheio de vida que quer sair… Não sabe ainda nos seus curtos 18 meses por que não pode correr lá fora.. E a menina, minha filha, fez oito anos dia 21.. Dia Mundial da Poesia… Recebeu um bolinho de aniversário… E uma poesia, claro… Tá lá no Blog.. Três pessoas cantaram com ela… Parabéns pra você… Ela já entende o isolamento.. Mas, quer sair… Correr… Então junto-me a eles e corro por 20/25 minutos para olhar outras janelas… Estas também já receberam uma poesia… Também está lá no Blog… Ah! Aqui a menina e o menino já batem panelas… Viu como despertas a escrita?

    Curtido por 1 pessoa

    • Ei meu amigo! É sempre bom vermos outras janelas… Apesar do silêncio lá fora desses últimos dias, tirando as panelas, rsrs, por aqui não vi arco-íris… Estou preocupada, pois tive que parar um projeto e meus processos estão parados também. Graças a Deus tenho a escrita e acho mesmo que o Universo conspira para me obrigar a escrever… Estou brava com ele e com isso tudo, kkkkkk… diferente de suas crianças não consegui ainda entender esse isolamento total que a princípio senti ser benéfico, mas hoje estou cheia de dúvidas. Precisava gritar e escrevi num supetão… Feliz em saber que seus dias foram agradáveis e que de outras janelas existem perspectivas mais leves e barulhentas com crianças inocentes correndo. Amanhã dou um pulo no seu blog para ver se absorvo das suas poesias e faço acordar a minha menina inquieta louca pra brincar lá fora… heheh

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